quinta-feira, 19 de setembro de 2013

horas vadias

São só três linhas e uma oitava acima
Aguardo nada, um gesto, corpo, são.
Foram duas horas e caíram doze grãos.

Tempo escorrendo, areia fina, vazia.
Horas amanhecidas, tiras de fita desalinhavadas.
não são nada.

quem diria que por entre estes dedos
um mundo não se deformou,
uma razão não deixou de ser,
um pulso não parou de bater,

Enquanto as horas vagas
passaram
por entre mim e você.




quarta-feira, 4 de setembro de 2013

HOJE

  ?

Esse é sempre um bom começo
pra jornada infinita
de um hoje

acordei num copo d'água,
batendo os braços, margem à margem,
da redondice do copo

(sem saber se na de lá ou na de cá)
descansei sob a luz da...
chuva

Precisei me lembrar de que isso é só mais uma brincadeira,
mais uma brincadeira,
pregada por esse hoje

estiquei meu corpo pelo asfalto,
lambi o chão
e já era noite

gosto de mel, açúcar, um tapete doce,
o chão duro desse dia
chicoteou meus dois joelhos

aprendi um novo chá,
desses quentes e densos
para quebrar a tensão/atenção

afinal, não há nada de errado
quando um hoje se prorroga
por dois dias e meio

...

é uma questão de ansiedade
uma saudade,
e um retorno

e quando você acorda,
de repente,
hoje já é amanhã.


domingo, 8 de janeiro de 2012

Hoje a madrugada está relativamente quente. Visto uma camisola em meu apartamento, no centro, não estou nua em pelo. Mas não sei mais o que me tornei, identidade mesmo. Sei coisinhas. Sei pouco de quem era. Sei do que sinto falta. Mas do que ser, mesmo, ali, na hora, sei nada. Sei que queria voltar e ter uma outra vida, mas esta também não era o que queria, quando era o que era. Sei que faz tempo que não escrevo e, agora mesmo, sei que perdi o jeito. Nem uma rima, desde o início de toda esta sapiência sobre nada de si mesmo. Parece que eu perdi o movimento, que antes, era um roçar de asas, um palpitar imenso e eu já estava lá, e agora eu sento neste computador e parece que tudo se move ao meu redor e eu não ando, não me mexo. Sento num sofá que me engole e não ouço e não vejo e não suo mais. É uma parada total, um pé num freio imaginário, que nem título eu consigo dar. Estou agonizando, mas se você olha, parece que está tudo tão bem, que a vida anda perfeita e eu não consigo me debater de me afogar em todo esse marasmo de ser, este inferno que todos desejam de normalidade.
O telefone tocou e quando fui ver, derrubei um copo inteiro de água na mesa que não tem verniz. “Vamos começar a tocar às três”, ele diz, e eu rio sozinha do copo que eu derrubei na mesa sem verniz, que ele quebrou por 2 segundos, o imenso tédio em que estou boiando. Ainda que quando eu trabalho, esse vazio fica preenchido de todas aquelas coisas sem sentido e eu finjo que está tudo bem e a minha boca concorda sorrindo, está tudo bem. Mas eu estou de férias agora. E eu leio essas idiotas, essas malditas que roubaram minha velhice, a Hilda, a Clarice e a Lygia, mas principalmente a Hilda, e eu não sento mais aqui pra perverter em palavras essa cretinice que me aporrinha cotidianamente. O que eu sou, isso já tá perdido. Terapia é o escambau, que minha terapeuta conheceu um português e me avisou na sexta que na terça ia pra Europa e “vamos fazer sessões pelo skype” e eu concordei fingindo, que ódio, que eu perdi aquela manhã, hora do almoço e início de tarde em que a gente se alimenta de si e se saboreia e, sentindo o gosto, lembra, um pouquinho ao menos do que é, do que sente e do que queria pra si naquelas horinhas bobas.
Eu ouço o relógio bater os segundos na sala, mas o ponteiro caiu e eu não sei se ele está mentindo. Ele deixou um cd todo branco na minha cômoda, mas eu fujo desta armadilha, que sei que isso é controle e eu não posso mais, não dá mais pra ser tão controlada, tão dócil - eu sou a minha cachorra e ela é um golden retriever. Se ouço direita, vou à direita. Se é esquerda, esquerda, então. Não existe mais uma sexta-feira de perda e dor. Eu quase posso ouvir uma gaita chorando, na memória de chuva de sextas – mas hoje já é sábado e ontem eu dormi cedo.
Eu ouço por aí que odeio demais, que sou do contra, que falo demais, mas, também, ninguém quer saber a verdade, e eu tenho que disfarçar dizendo algo idiota, que possa fazer todos focarem na contradição. Que eu sou toda, toda, contradição. E eu não quero mais culpa, eu nem aceito mais, eu só engulo. Eu não vou e venho quando eu quero, eu não estou preenchida, então eu como demais, eu bebo demais, eu fumo demais, eu cheiro demais, eu obedeço demais, tudo, todos. E, quando não isso, eu dou outro jeito: faço relatórios demais.
Ontem eu andei na praia e a areia assou meus pés. E tudo que eu desejava era correr de novo, que nessa hora era só eu e música e toda a praia. É pra isso que praia existe, pra gente atropelar tanta areia e chegar do outro lado e voltar e voltar de novo e de novo, até as pernas bambearem e você poder dizer que agora sim, posso ir pra casa. Eu sinto falta de ter fome e de ter desejo que são iguais, na verdade. Parece que não tem mais espaço pra você ser alguém de filme e isso é crescer e ser maduro, e eu sempre quis ser alguém de filme, uma coisa fora do comum, esse comum me corrói, é ácido me destruindo, parece que de dentro pra fora, que vai me derretendo e derretendo, eu estou é isso: derretendo. Se eu fosse me filmar ia ser uns bifes e um ácido derretendo.
E agora que estou sentindo algo, são os mosquitos me tirando de janta, eu virei gado, eu sou um rango, mas não é só meu corpo, minha cabeça também, estão devorando tudo que havia de lindo aqui dentro e o pior é que sou eu mesma, comendo de colher, como se eu fosse me devorando o pé, depois as pernas, depois minha barriga, meu peito, até sumir e ser só uma boca. Que não tem mais o que dizer.

quinta-feira, 29 de abril de 2010

saudade

Eu não sei se é disso que são feitas as ilusões. Ou se essa falta é de possuir. Mas ela vem.

E essa posse não tem mais olhos, não tem mais corpo, nem cheiro, nem cabelos. É de uma sensação que estranho, que deveria existir ainda, mas, só vem nos sonhos.

Bem me dizem os próximos que eu vivo de lembrar o que foi. Ou, mais certo, o que não foi. E crio essas coisas que formam as ilusões. E vivo uma vida paralela, à noite, antes de dormir.

É uma hora que dedico a esse nada. É uma hora que vale todo o meu dia, em que a sensação existe ainda, no meu abraço.

E eu não abraço nada! Mas, está lá. E eu sinto forte. E pulsa.

É um lago. É uma lua muito cheia. É embriaguez. E é vermelho e é branco. E é amor.

Mas não é.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

24 portas adentro - XII porta

As portas se abriram. Amigos, amigos queridos. Entraram juntos no bar, que era só fumaça pra todo canto. Enquanto caminhava, ela lembrava que só sabia narrar em inglês. Em português, era toda poesia, poesia nua, dolorida, umas coisas florzinhas que rabiscava em guardanapos de boteco e depois esquecia em gavetas. “Queridos, queridos”, pensava. Estavam ali todos os seus amados e amadas, ternos, por estarem justamente nesse dia, seu aniversário.

Completava trinta anos cristãos sobre a Terra. Enquanto caminhava, começava a sentir que a música ia adentrando seu corpo, mesmo sendo daquelas melodias não-melodias, das boates em geral, que batem, batem, batem, até que o corpo se entrega, abraça a batida e vira a batida, bate junto, sincronizado com a não-melodia.

Todos sorriam, todos bebiam de umas taças de formatos estranhos, apanhadas de um ou outro garçom que passava: um zigue-zague de haste, parafusos de hastes de taças, líquidos de todas as cores, azul-anis, dourado-tequila, vermelho-tomate e vodka, rum e tantas outras derramadas nas bocas sorridentes, levando para longe o brilho sóbrio dos lábios, olhos de ressaca, olhos de alegria de bebedeira, olhos que esquecem seus superegos e se atiram para os lados, e dançam, junto dos corpos, mas, de todos os corpos.

E havia um êxtase em se desfrutar desse instante, um êxtase em compartilhar essa alegria: joy. “Um sea of joy, como a música”, pensou. Dançando abraçados olhos semi-fechados sorrisos abertos, e a batida, ao redor, de tudo, que girava, enquanto giravam, presos ao chão por um fio, fino, de realidade.

Como girava, também ela, no entreabrir daquele momento, percebeu uma rampa ao final de tudo. E era o final de tudo, um homem de cabelos longos e dois olhos negros de que não se esquece, nem em sonho, nem de verdade, olhos que não se esquece: sua mão esquerda estendida, convidando-a, que viesse, subisse a rampa e lhe desse a mão. Em cada um de seus lados, uma mulher, duas, com cabelos de fogo, curtos, como labareda, sacudiam, sensualíssimas, duas serpentes de cabeça em chamas, fitando-a, chamando-a sem palavras, sem gestos, mas, chamando-a, que subisse a rampa, para aquele outro patamar (ela quase ouvia suas vozes).

Parou e fitou. Seus amados sentiam, sabiam: cercaram-na de repente, como que pedissem, todos, que não andasse até lá. Os sorrisos estavam mais sérios, talvez cristalizados, apreensivos, como quem sorria e perdeu a deixa, desapontado da hora errada de sorrir, pensavam ser uma coisa e eram outra, que ela esquecia, hipnotizada pelas três figuras do alto daquela rampa. Três estrelas a que não poderia resistir.

Caminhou cinco passos. E não pensava frases, mas imagens e delícias e sensações, daquelas que não se confessa, ouvindo, ao fundo, “não”, “espere”, “aonde vai?”, “por que?”... mas, tão baixinho, que já não fazia sentido, nada fazia sentido, seus queridos, “queridos”, lembrou, tão longe já, pequenos, olhando de perto os olhos de que não se esquece, oferecendo sua mão esquerda, na direita uma maçã, levando à boca a maçã.

Ele a abraçou, enquanto dançava, e dançou, olhando tão dentro dela, que enxergava todos os pontos da sua alma. Ela sabia e isso a deixava ainda mais excitada, dormente, cega, sentia o erro de se deixar naquela mão esquerda, sentia o erro e tanto mais adorava e tanto mais se mexia, e tanto mais se perdia naquela... sombra de olhos inesquecíveis, que a conduzia a um outro andar. E as serpentes se uniam à dança, encaixadas no casal, enroladas ao casal, um nó, um chicote, um laço...

“Ela tem os olhos mais verdes que o mais verde”, pensou.

E, quando foi entregue à ela, o lugar não existia mais. Era apenas a fumaça e aquela mulher, de cabelos até a cintura, os olhos mais verdes que já vira e um cheiro que a desconcertou no primeiro segundo.

Empurrou à ela a bandeja. Que cheirou todo o pó brilhante de uma só vez.

A não-melodia se tornou música. Música, e aquela mulher que lhe oferecia o infinito e que ela aceitava, embalando-se na batida, corpos colados, um corpo, que era dois, mas não é mais, que é todo o mundo e não é nada, pernas entrelaçadas, como duas lésbicas se fodem, mas as roupas, que não estavam lá, eram duas-uma, despidas, e os olhos mais verdes que todos os verdes, engolindo a fumaça, toda a fumaça do bar, numa única inspiração.

Ela gozou. E os olhos verdes engoliram seu orgasmo. E tudo mais que era. Que viria a ser. Engoliu sua essência. Numa dança. Num instante.

Ela tentou recuar, dizer não, mas não tinha voz, não tinha palavras, não tinha mais quem era, mais nada. Restou um gemido no ar. Perdido no espaço vazio, que não tinha mais fumaça. Era um oco. Não havia existência. Nunca houve nada ali, além de lembranças de ninguém. Um vir a ser que não foi. Um nada.

Na sua inconsciência, percebeu-se nada, espalhado no vazio.

E uma solidão que lhe roía... nada.

Como sentir a solidão, não existindo? E entendeu-se solidão. Entendeu-se dor. E, naquele momento se lembrou quem era.

Abriu os olhos no corredor. E estava diante de outra porta...