quinta-feira, 20 de setembro de 2007

Noite A-Pesar


Noite apenas.
Nudez que brilha o sorriso
refletido em grande lago negro.

Desejo de água,
Desejo de gelo

Abre-se para madrugada: um botão.
Abrem-se as nuvens no céu,
mas,
ainda...
enevoado.

Pelos eriçados
na cauda de um pequeno gato preto,
O coral cantando na igreja:
como que avisos:
Há tempo!

Um fio de linha se embaraça
nas pernas de bailarina
que dançam a escuridão do seu dentro,
palpando, às cegas, um caminho.

Barulhos à frente:
Caminhos?

Nove poças d’água,
nadadas pé ante pé:

O desejo da água?
Desejo o degelo!

Lá se abriram novos sonhos
como se se abrissem pesadas comportas invisíveis
que inundaram todo o sem-fim
daquele corpo sedento





Ela, agora...
Afoga


Mari Brasil

segunda-feira, 10 de setembro de 2007

O Outro


Sem rodeios, sem derivas:
aceito tudo que me satisfaça.
o que me fez este ser idiota que sou?
A nada interessa: aceito a condição pela recompensa do imediato sentido.

Lá pelos tédios, morro aos poucos de desgosto.
Um pouco também de vergonha.
Pois, na boca dos outros, me corrôo, me enferrujo,
a parte mais bela deste meu não-ser.

Mas, se não me falam, Sou como?
Se eu não conto, o que (h)ouve?
Se eu orgasmo, Quem? orgasmo?
E se eu não defino, alguém definha... Eu definho!

Onde fica gravada essa minha lembrança,
se não no conto que outros lêem?
Por que escrevo, quando não amam?
E quando não amo, por que escrevo, ainda assim?

Quando falo baixo,
ninguém escuta...
e eu lamento!
Que dor é essa?

No seu olho, Sou grande. Mas, um tanto baixa...
No meu, a quem importa?
Minha história, deturpada na sua memória.
Ainda assim, ali, nesse seu lugar. Em um lugar.

Se não lhe falo, lhe falho, me falho!
Se não há o outro, quem sou, onde estou?
No desabrochar do seu sorriso, meu gozo:
Estou aqui!

Mas...
pelo sorriso,
SOU portanto, um prazer.
E de nada mais preciso.


Mari Brasil

sábado, 8 de setembro de 2007

Fluido


Se me ouvisse melhor, cantando baixinho...
enxergaria um feixe violeta e
projetaria um lago nesse jardim de macieiras.

Sentado num sonho, no relevo inconstante da nuvem,
tocaria o céu com o dedo indicador,
e penderia os braços pelo corpo, ébrio.

Mas, passe o tempo a contar as suas bolinhas de vidro...
nada lhe importe as tempestades de verão.
o seco está sempre a seu caminho.

No revoltoso mar de impressões
continuo gotas,
continuo água!

Subo minha maré cheia
como se lançam da flauta as melodias:
no porvir indeciso das ondas,
no devir impreciso da história.



Mari Brasil