segunda-feira, 1 de setembro de 2008

Venha


És tão claro, como uma rede atirada ao oceano de metáforas de uma língua morta.
Caminhando por pracinhas bucólicas em fins de tarde,
sentamos e lemos e observamos, como se nada mais houvesse de se fazer vida afora.
Domingos curtos e preguiçosos...

Venenos, meu caro. Venenos...
que quebrem a vulgaridade, atentando ao espírito.
Nos deitamos um ao outro, de cabelos que se embaraçam, se penteiam, se arrancam...

Debatemo-nos, inquirimo-nos, aceitamo-nos.
Cremos em ser mais do que somos.
Pois que a música nos denota solidão e reencontro,
pois que a música nos encara aos nossos abismos e lá, nos concebemos:
dois.

Deito às margens das ondas, olhos semi-cerrados, do abraço do sol...
e um medo de estender a mão para o lado...
E ela receber a sua resposta.
Aí sim...

aí sim:
Prostrar-me diante da noite, merecer.
Um corpo quente que me aterrorize ou me enterneça,
ao qual me entregue, seja como for.

Escrevemos nossos dias no tempero da carne,
no cheiro dos livros velhos que não cabem mais à estante,
que em nossas mãos se esfarelam, recriados.
Escrevemos nossos dias em versos,
do sabor que chega da cozinha
e contamina a rua.

Gosto do vinho que agora pertence às nossas entranhas.
E nos embriaga, e nos estraga, e nos faz sentir, mais e mais,
o deslumbre de se transformar, um ao outro, na mais pura efemeridade.

Venha logo.




Mari Brasil

sábado, 16 de agosto de 2008

Esperando a carta


Estou olhando de canto esta carta que não encontrei na caixa de correio.
Pois ela não me foi entregue, ainda.
E possui, em meu imaginário, o conjunto dos segredos necessários.
Talvez, o conjunto dos segredos desnecessários.

O desnecessário sempre me soou importante.

Eu admiro o envelope, sinto seu cheiro,
voando, junto a milhões de outros, brilhando, branco no ar.
Um tanto sujo, cheio de selos e carimbos,
Muitas moradas e tintas, até o alcance das mãos.
Até que se deixa apanhar, em meio aos outros tantos.

Há uma pausa no mundo

E o mensageiro atravessa as ruas, carta nas mãos.
Caminha no sol,
assobiando.
Se perde...
se perde.

Sinto a textura do papel contra o meu rosto,
vejo, em mim, letras borradas.
Corro atrás de uma folha levada pelo vento.
Sento na rede, na varanda, com a carta no colo,
respiro devagar,
cubro um olho, abro o outro bem fininho,
como criança, que não pode olhar o filme de terror,
e, ao mesmo tempo, não pode se conter...

mas ela ainda não chegou.

Então continuo espiando,
Medo das palmas no portão,
De que eu seja convidada a assinar o recibo e que se oficialize:
“Está confirmado. Mariana tem a carta em mãos.”

“Resta lê-la”

Um pavor das quatro da tarde.
Deixo a casa, escondida, olhando atenta pra os lados.
Levo as coisas. Fujo!
Me mudo!

Ao mesmo tempo, em que espero,
pacientemente, uma lista de palavras
já imaginadas, lidas, interpretadas, relembradas,
distorcidas, mal-faladas, traduzidas,
Malditas! Malditas!

Um sorriso à primeira linha,
um soco na cara, à primeira linha?
Um nascer do sol,
uma chapa de raio X,
um coringa, um corvo, uma borboleta?
Uma passagem de ida e volta ao inferno!

E o carteiro não chega.
Mari Brasil

domingo, 3 de agosto de 2008

Eu não sei que nome dar pra isso

Cada gota de chuva no dia morno anuncia um milagrezinho banal,
Esconde e escolhe e encolhe o raio que foi o dia, anuncia a noite e atrai:
nuvem de armadilhas de mim mesma, encaçapando a razão, quebrando a janela.
- Conheci um mago semana passada e ele me enfeitiçaria se eu lhe desse o rabo...

- Dei.
Ia saindo de manso, virei as costas e... me tornei a janela.
Agora preciso de algo que me escancare!
E você...

Você é um resto de ódio, de incompletude, de pó,
a vaidade que não se concretiza, o osso do cachorro que perdeu o buraco onde enterrou.
Corre cru, como um pálido de giz que risca as paredes do meu quarto,
Parado, é um ponteiro de relógio, que diz que é tempo de a hora não mais passar.

E se existe algo além do rio que me atravessa, algo além do que me atrapalha,
me corrói um erro de cristalizar o ser, o nascer, o amar e o amargo,
todos sempre juntos na lida cotidiana, no jogo de esconder o bárbaro e o real.
E sempre há, é claro, as semanas em que me sinto suja...

Coberta da sujeira, satisfeita de lama, me esfrego em becos,
deito no chão, rolo no chão e lambo os muros, me faltam palavras.
Sempre me faltam as palavras...
Então digo mesmo nada que preste, e a sujeira continua, cinza do dia que já vai embora e do encardido tatuado na minha cara.



Mari Brasil

Por que escritoras fumam tanto, bebem e trepam com um monte de imbecis?

Porque... porque... ai de nós.
Mas, não.
Não tou de piedade não: é medo.

Atrás de um...
nó certo para amarrar as palavras.

Sem crer que seja só isso aí mesmo: álcool, cigarros
e encontro de corpos ferinos

Um medo de que se sinta apenas no papel...
Ou que nele nada brote porque percebemos,

aos poucos,
que nada há, além de distrações para que o tempo longo da madrugada passe sem machucar demais.

Ao lado de cada vôo, para que doa,
Acima de tudo, para que doa!
Não por liberdade, que isso é enganação.
é pra se acorrentar, pra meter grades!

Se desatamos a compreender o tudo, resta o vazio, a vontade despedaça, e nada mais sangra que faça sentido.
É para sangrar.

Calar a necessidade de solidão,
fingir satisfação quando a porra jorra na cara.

De tempos em tempos, só para irritar...
Que de nada vale, sem que eu interfira no que vive.

É deixar a carne marcada do que sentem as palavras quando justapostas.

Na verdade...
é porque é tudo uma merda mesmo.
Mari Brasil

sexta-feira, 25 de julho de 2008


Já havia vazado mais de litro quando chegamos lá. O desfecho escuro da noite já se ia, o morno da carne também, contornando o ar do quarto, suave, que nem mar em calmaria.
Os olhos ainda escancarados, a boca dura, quase que cravada no travesseiro.
Pensava no tempo, enquanto acariciava os cabelos secos que desciam pela nuca.
Encontrei, nas costas nuas, razões para mantê-las assim nuas por mais algumas horas. Eram pedaços de corpo em que nunca havia reparado, apesar de tanta maldade, de tanta malícia com que havia afagado estas costas, unhas cravadas até o gozo ébrio e úmido.
Uma curva. Uma marca. Outra marca.
Sempre estiveram ali. Enquanto eu... nunca estive de verdade. Nunca fui registro deste corpo, parte dele.
E, ainda assim, ao me debruçar naquela nova curva, senti meu cheiro se espalhando por sobre o cheiro dela, dele, da cama, do quarto, mergulhada numa sensação de cobrir aquela que havia sido outra vida, outro plano.
Ela chorava, em pé, horrorizada da cena de morte, quando lhe disse:
- Você já não esteve perdida? Digo, você, alguma vez, teve um plano?
Ela não entendeu a pergunta.
Não, ela entendeu a pergunta. Só não conseguia entender o que isso tinha a ver com a situação. E continuou chorosa, continuou descontrolada, enquanto eu continuava procurando novos contornos. Insisti:
- Você também é curiosa sobre as pessoas que têm um plano?
- Por que você está fazendo estas perguntas idiotas? Ligue para alguém! Chame alguém! – berrou, entre soluços.
Mas, as costas nuas me convidavam a contemplá-las, em toda sua rigidez. E eu não me movi.
O sol passou a despontar na manhã, um fiozinho alumiando a parede, perto da cômoda. Em cima dela, uma garrafa de vinho, as horas passando e os planos vazando, escorregadios, pela janela.



Mari Brasil