domingo, 23 de agosto de 2015

Aeroportos



Muitos cadernos em branco.
E a memória cheia de cenas de aeroporto que nunca aconteceram.

Tiro o pó das folhas.
Construo uma nova caixa.
Mas ainda guardo os mesmos, mesmos, desejos

Hoje entendo, aprendi o que é dor.
Ouço a voz dizendo dê meia-volta.
Ainda desobedeço – mas ouço.

Agora eu moro no aeroporto,
e o simbólico desejo de voar se tornou
uma casa e suas raízes.

Cuido pouco das crias
e de mim.
Olho meu pai e reconheço:
Ele não me ensinou como

os olhos no mapa e
é grande demais
para deixar tanta dor se apegar.
Mas hoje eu criei uma nova caixa.

E é apenas a primeira.

quinta-feira, 19 de setembro de 2013

horas vadias

São só três linhas e uma oitava acima
Aguardo nada, um gesto, corpo, são.
Foram duas horas e caíram doze grãos.

Tempo escorrendo, areia fina, vazia.
Horas amanhecidas, tiras de fita desalinhavadas.
não são nada.

quem diria que por entre estes dedos
um mundo não se deformou,
uma razão não deixou de ser,
um pulso não parou de bater,

Enquanto as horas vagas
passaram
por entre mim e você.




quarta-feira, 4 de setembro de 2013

HOJE

  ?

Esse é sempre um bom começo
pra jornada infinita
de um hoje

acordei num copo d'água,
batendo os braços, margem à margem,
da redondice do copo

(sem saber se na de lá ou na de cá)
descansei sob a luz da...
chuva

Precisei me lembrar de que isso é só mais uma brincadeira,
mais uma brincadeira,
pregada por esse hoje

estiquei meu corpo pelo asfalto,
lambi o chão
e já era noite

gosto de mel, açúcar, um tapete doce,
o chão duro desse dia
chicoteou meus dois joelhos

aprendi um novo chá,
desses quentes e densos
para quebrar a tensão/atenção

afinal, não há nada de errado
quando um hoje se prorroga
por dois dias e meio

...

é uma questão de ansiedade
uma saudade,
e um retorno

e quando você acorda,
de repente,
hoje já é amanhã.


domingo, 8 de janeiro de 2012

Hoje a madrugada está relativamente quente. Visto uma camisola em meu apartamento, no centro, não estou nua em pelo. Mas não sei mais o que me tornei, identidade mesmo. Sei coisinhas. Sei pouco de quem era. Sei do que sinto falta. Mas do que ser, mesmo, ali, na hora, sei nada. Sei que queria voltar e ter uma outra vida, mas esta também não era o que queria, quando era o que era. Sei que faz tempo que não escrevo e, agora mesmo, sei que perdi o jeito. Nem uma rima, desde o início de toda esta sapiência sobre nada de si mesmo. Parece que eu perdi o movimento, que antes, era um roçar de asas, um palpitar imenso e eu já estava lá, e agora eu sento neste computador e parece que tudo se move ao meu redor e eu não ando, não me mexo. Sento num sofá que me engole e não ouço e não vejo e não suo mais. É uma parada total, um pé num freio imaginário, que nem título eu consigo dar. Estou agonizando, mas se você olha, parece que está tudo tão bem, que a vida anda perfeita e eu não consigo me debater de me afogar em todo esse marasmo de ser, este inferno que todos desejam de normalidade.
O telefone tocou e quando fui ver, derrubei um copo inteiro de água na mesa que não tem verniz. “Vamos começar a tocar às três”, ele diz, e eu rio sozinha do copo que eu derrubei na mesa sem verniz, que ele quebrou por 2 segundos, o imenso tédio em que estou boiando. Ainda que quando eu trabalho, esse vazio fica preenchido de todas aquelas coisas sem sentido e eu finjo que está tudo bem e a minha boca concorda sorrindo, está tudo bem. Mas eu estou de férias agora. E eu leio essas idiotas, essas malditas que roubaram minha velhice, a Hilda, a Clarice e a Lygia, mas principalmente a Hilda, e eu não sento mais aqui pra perverter em palavras essa cretinice que me aporrinha cotidianamente. O que eu sou, isso já tá perdido. Terapia é o escambau, que minha terapeuta conheceu um português e me avisou na sexta que na terça ia pra Europa e “vamos fazer sessões pelo skype” e eu concordei fingindo, que ódio, que eu perdi aquela manhã, hora do almoço e início de tarde em que a gente se alimenta de si e se saboreia e, sentindo o gosto, lembra, um pouquinho ao menos do que é, do que sente e do que queria pra si naquelas horinhas bobas.
Eu ouço o relógio bater os segundos na sala, mas o ponteiro caiu e eu não sei se ele está mentindo. Ele deixou um cd todo branco na minha cômoda, mas eu fujo desta armadilha, que sei que isso é controle e eu não posso mais, não dá mais pra ser tão controlada, tão dócil - eu sou a minha cachorra e ela é um golden retriever. Se ouço direita, vou à direita. Se é esquerda, esquerda, então. Não existe mais uma sexta-feira de perda e dor. Eu quase posso ouvir uma gaita chorando, na memória de chuva de sextas – mas hoje já é sábado e ontem eu dormi cedo.
Eu ouço por aí que odeio demais, que sou do contra, que falo demais, mas, também, ninguém quer saber a verdade, e eu tenho que disfarçar dizendo algo idiota, que possa fazer todos focarem na contradição. Que eu sou toda, toda, contradição. E eu não quero mais culpa, eu nem aceito mais, eu só engulo. Eu não vou e venho quando eu quero, eu não estou preenchida, então eu como demais, eu bebo demais, eu fumo demais, eu cheiro demais, eu obedeço demais, tudo, todos. E, quando não isso, eu dou outro jeito: faço relatórios demais.
Ontem eu andei na praia e a areia assou meus pés. E tudo que eu desejava era correr de novo, que nessa hora era só eu e música e toda a praia. É pra isso que praia existe, pra gente atropelar tanta areia e chegar do outro lado e voltar e voltar de novo e de novo, até as pernas bambearem e você poder dizer que agora sim, posso ir pra casa. Eu sinto falta de ter fome e de ter desejo que são iguais, na verdade. Parece que não tem mais espaço pra você ser alguém de filme e isso é crescer e ser maduro, e eu sempre quis ser alguém de filme, uma coisa fora do comum, esse comum me corrói, é ácido me destruindo, parece que de dentro pra fora, que vai me derretendo e derretendo, eu estou é isso: derretendo. Se eu fosse me filmar ia ser uns bifes e um ácido derretendo.
E agora que estou sentindo algo, são os mosquitos me tirando de janta, eu virei gado, eu sou um rango, mas não é só meu corpo, minha cabeça também, estão devorando tudo que havia de lindo aqui dentro e o pior é que sou eu mesma, comendo de colher, como se eu fosse me devorando o pé, depois as pernas, depois minha barriga, meu peito, até sumir e ser só uma boca. Que não tem mais o que dizer.

quinta-feira, 29 de abril de 2010

saudade

Eu não sei se é disso que são feitas as ilusões. Ou se essa falta é de possuir. Mas ela vem.

E essa posse não tem mais olhos, não tem mais corpo, nem cheiro, nem cabelos. É de uma sensação que estranho, que deveria existir ainda, mas, só vem nos sonhos.

Bem me dizem os próximos que eu vivo de lembrar o que foi. Ou, mais certo, o que não foi. E crio essas coisas que formam as ilusões. E vivo uma vida paralela, à noite, antes de dormir.

É uma hora que dedico a esse nada. É uma hora que vale todo o meu dia, em que a sensação existe ainda, no meu abraço.

E eu não abraço nada! Mas, está lá. E eu sinto forte. E pulsa.

É um lago. É uma lua muito cheia. É embriaguez. E é vermelho e é branco. E é amor.

Mas não é.