terça-feira, 22 de abril de 2008

Blowjob

Muita corda na garganta, só esperando nós, banquinhos e um pulo para um infinito.
Quem me amarra sou eu.
Sou quem dá o “nós”,
esperando que alguém me desamarre.

Ah, faça-me o favor e logo me avise, hein?
Estas expectativas andam de matar!
Aquela menininha rindo de mim na sacada também.
Até parece que nunca foi amada...

Ando correndo lado pro outro do espelho
só ali me vejo.
Nada de olho no olho: olho numa fina camada de prata.
E me reconheço.

Parece até que não te culpo,
tudo aqui dentro, nas entranhas:
um corpo, um beijo, uma mão e ando de joelhos.
Troco passagens, amo a volta e não há nada aqui que compense.

Só um abraço inventado,
mentira, mentira que cochicho pra mim:
sorriso estampado na cara e uma vontade de sei lá quê...
que dê conta de tanta sede de histórias de mais de um e menos de muitos.

Nem parece que você não sabe.
Tudo trocado aqui dentro: sem olhar duas vezes no mesmo sentido.
E, quando olho, me perco de novo.
Te mastigo inteiro e você já não é nada.
E nem eu sou.
Perdida que estou, nesse teu cheiro.
Mari Brasil

segunda-feira, 21 de abril de 2008

Acorde,


Acorde, então, no dia estranho da tua casa e bate a porta ao entrar quarto acima sob tanta chuva. Espeta o dedo no cheiro de saudade e entra no chuveiro para se aquecer e limpar a dor de ser um traidor.
É tanto medo que não vê, nos lados, um fundo de mentiras e à frente, um caminho possível.
Pânico: não observar as outras direções e seguir reto: um plano.
Mas, no plano, a possibilidade de não funcionar.
Então parte para o ataque a todas as coisas, nada passando de lado, e nada... nada enfocando pelas tuas lentes.
É de um abraço do destino que precisa, daqueles que não se pode se desvencilhar.
Mistura um laço de cipós com uma onda certeira do mar e vai ao fundo. Fica lá, preso ao abraço do destino...
Segundos em horas.
E, quando, alcança a areia, beija a areia, o chão da praia como um colchão, onde deita a cabeça e descansa.
Olha a tempestade dissipando.
Acorde, então, no dia estranho da tua casa e...
Deixa a porta aberta.
Mari Brasil

segunda-feira, 7 de abril de 2008

Primeiro Olhar


Um ar inapropriado para um primeiro olhar.
Inadequado...
e, por tanto, curiosidade que apenas aflora em movimento.
Nada pensado:
sem obviedades quando caminho em sua direção.
Alguma coisa aquecida aqui dentro pelos nossos silêncios.

Então lhe digo:
- Aqui moram vontades e verdades, como palavras que já foram e não podem mais entender o dia. Ou extender o dia.

Desembaraço esboços de danças e chuva e...
uma satisfação de se acreditar em alguém que me partilhe os segredos do mundo.

Seus gestos me transformam as ilusões.
Ilusões, ainda que novas as formas, adocicadas.

Torço meus lábios e deixo a timidez passar.
Colo em seu rosto um segundo de beijo!
Uma música suspensa... no momento em que caem as distâncias de medo e sinto o peso da sua mão em meus cabelos.

Entre os quadros do quarto, um grande espelho.
Olho pela, a janela. E me volto:
respiro seu corpo no meu e apaixono: contorno dos teus ombros.

À meia-luz, uma curva castanha desce pela nuca e corre para a madrugada.
Em seu encalço, meu olhar para o seu,
entre o nosso,
para o nada.
Mari Brasil

quinta-feira, 13 de março de 2008

Perder-se


Uma ajuda para compreender a angústia
que escreve letras nas folhas mais verdes das copas mais altas,
adoentando-as antes mesmo que toquem o chão, que caiam e repousem
como tapete avermelhado sobre o ventre redondo de terra úmida.

Um leve descansar os olhos e volta a respiração difícil de ter que se contornar os desejos e partir
numa larga estrada esburacada para uma paradoxal solidão,
erguida da própria solidão.

Alguém sopra às orelhas - entre.

E há, no gesto, um não sei quê de necessário para que se abra o peito e se atinja as estrelas
interiores que projetem no escuro - é necessário um sentido.

Mas só há caminhos...

Três gotas de chuva tocam as folhas, re-tornando o orvalho.
Elas anoitecem as copas mais altas, inclinando-se pelo peso,
pelas mãos do vento,
que sopra.

Sopra um sentido às orelhas – entre.

Peito aberto, de estrelas apagadas.
a fascinação toma rumo,
no encalço da estrada.
Entre.

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008

A


Mergulhada num longo silêncio...
os dedos desacostumaram às palavras.
Um vazio de faz de conta,
Boiando no mar das sentenças.

Deixei as conjunções suspensas.
Cortei as unhas, li Garcia Márquez e... nada.
As letras passam aos cardumes
Todas embaralhadas, naquele momento.

Não choro um rio faz tempo.
Toda endurecida aqui no peito.
A testa, franzida... medo?
Medo, rancor, e uma brabeza!

Um disfarce, talvez, para a tristeza.
Estico o braço, me desembaraço e alcanço!
Do meio do cardume, uma letra.
Abro a mão direita com cuidado...

Abro os olhos meio de lado...
Como num sonho distante, reconheço:
Na palma da mão, a letra “A”.
E com ela, um recomeço.