sexta-feira, 21 de novembro de 2008

O Estupro




Sempre admirei, de longe, a fantasia do estupro. Imaginei a completa ausência de poder, despido à força da sua convicção por algo ou alguém simplesmente irrepreensível, porque maior, mais forte, mais real...
E que ali não haveria chance de recusas, pois que não haveria chance de embate, debate, controvérsia. Ali, residiria total submissão.
E como seria a dor/prazer, essa troca louca de imagens e sensações, quando não se alcança a autonomia de fazer valer o simples som do “não”. Imaginava estas três letras que, quando justapostas, antecedem os contrários. Mas agora situadas em um universo em que nada significassem.
O dia em que este universo poderia se interpor a meus passos por, talvez, um engano inocente, de um suposto desejo inconsciente que nunca existiu:
No leito, do quarto escuro e fechado, nua em pelo, só a coleira entrelaçada ao pescoço e um homem descomunal, me acariciando o sexo.
Um fiozinho de luz da janela pequena, pouco iluminando os dois olhos azuis que, eventualmente, olhavam a minha cara e sorriam. Sorriam os olhos e esse gesto me aterrorizava, porque neles residia um quê de maldade, de impudicícia, imprudência...
No entanto, fechei os meus olhos e entreguei: imóvel e doce, impotente, endereçada ao deleite do sadismo do outro.
Ele, um gigante daquelas curtas horas, e eu, um quase nada, à beira, a esmo, sem lugar que não fosse o dele, sem ação que não fosse dele, à inteira disposição.
Ao adotar o papel, o papel da minha fantasia subordinada, da decisão alheia, o sangue fluiu rápido por todo meu corpo, a respiração ofegou, fiquei quente demais: estava pronta. Era certo que estava pronta!
E quando aquelas mãos iniciaram o caminho de percorrer todo meu corpo, como se pertencesse a ele, como seu brinquedo, como se fosse plástico e que não se pudesse sentir nada...
eu sentia!
Doía! Cada aperto ao redor dos pulsos, cada golpe desferido, cada pedaço quase arrancado, mordido, um estraçalhar de mim mesma que não cabia mais nesse lugar imaginado, de sonho, de fantasia:
era a minha carne! Não era mais mentira!
Daí o terror subiu das dores para a cabeça, o desespero entrou em domínio e não havia mais calma, submissão, contentamento: não estava pronta! Era “não”! Era “não”!
- Por favor, me ouça! – gritava em mim. Mas o grito não saía: era “não”! – Por favor, me ouça!
Algo calou a hora de correr: que agora me adentrava com toda força, rasgando na entrada um pedaço de alma junto.
Deitada de costas, os braços não tinham chance contra as mãos agarradas aos pulsos. As costas não tinham chance contra o peito que as empurravam para baixo. As pernas nem sequer se moviam, do peso dos joelhos empurrando-as para os lados, escancarando-as mais que podiam, quase um desmembramento – de corpo, de sonho.
E a cena da minha fantasia de repente não era aquela! E controle, não havia nenhum! E a dor que deveria me encher de prazer, era... só dor!
Era só dor... a cada investida, de mãos, de pau, de boca, dentes e tanta força... e... tão pequena eu estava ali, quase inexistente de mim, olhando os contornos do travesseiro à frente, tentando esquecer o medo, pensar como sair, como sair daquela cena.
E quando ele me virou de frente, me enfiou o pau até tão fundo (tão fundo!), olhando os meus olhos quase fechados...
e, aí sim, aí me reduziu ao nada, ao fundo do desprezo:
Cuspiu na minha cara...

Cuspiu

Na

Minha

Cara

Fechei os olhos de vez...
E, no escuro, a saliva do rosto ficou salgada, misturada às tantas lágrimas que eu não continha mais, que eram o meu “não” conseguindo sair, vindo à tona: que ele enxergasse, por favor! Que ele entendesse, sem som, as três letras!
E depois de alguns minutos, ele viu...
Ficou imóvel um instante, os olhos franzidos, o rosto franzido.
Mudou para uma expressão confusa: levantou-se, me tomou nos braços, me aninhou.
E enquanto eu ainda não podia conter o choro, perguntava:
- Por que não disse nada? Por que não me disse nada?!! Como não disse nada????!!!
Estava com medo! Estava com medo! - tentei dizer,
mas a voz não saía...




Mari Brasil

quinta-feira, 30 de outubro de 2008

Puta


Bem que eu gostaria...
Ter sempre este sorriso de vidro a oferecer,
mesmo às faces mais pútridas das dores de alma.

Se há dignidade,
que o diga as putas!

Um andar sempre rebolar.
Sempre a clamar,
disponível, não cansar.

Mas... cobrar!
Que o que é delas, merece.
Que o que é, é prece.
É pressa
da hora passar.

terça-feira, 28 de outubro de 2008

Planos


1. Andar por aí despida de cartões de crédito.

2. Deixar de tentar ignorar a miséria. Sentir muito. Sentir mesmo.

3. A pergunta certa é: por que as escritoras CHORAM tanto?

4. Assustar-me com a barbárie. Não banalizar o que não é banal.

5. Me mudar para Curitiba e arrumar logo um cabeludo para passar mais tempo junto.

6. Parar de fingir que há mais gente que lê do que gente que escreve.

7. Não desandar a cada porrada levada na cara. Revidar, talvez...

8. que quem dá a outra face morre cedo.

9. Aproveitar e nunca mais dirigir. Pelo menos não com carteira de motorista. Não sabendo quem se é.

10. Sentir medo e ignorar... completamente.

Mariana

segunda-feira, 13 de outubro de 2008

Si


O choro do útero não preenchido é

Grito do feminino,

Seu tom mais puro

Re-ver-ber(r)ando

nas tripas,

frios na espinha e

as ondas da amargura

De não se encontrar pleno,

reforçado e carregado de vida,


Sua imagem,
linhagem,
mensagem


que se inscreve no corpo do "por vir".
E nunca configura o alcance
do sonho daquela que o sonha
Em seu mesmo corpo,
para mais além do outro,
para mais perto de si.
Mari Brasil

segunda-feira, 1 de setembro de 2008

Venha


És tão claro, como uma rede atirada ao oceano de metáforas de uma língua morta.
Caminhando por pracinhas bucólicas em fins de tarde,
sentamos e lemos e observamos, como se nada mais houvesse de se fazer vida afora.
Domingos curtos e preguiçosos...

Venenos, meu caro. Venenos...
que quebrem a vulgaridade, atentando ao espírito.
Nos deitamos um ao outro, de cabelos que se embaraçam, se penteiam, se arrancam...

Debatemo-nos, inquirimo-nos, aceitamo-nos.
Cremos em ser mais do que somos.
Pois que a música nos denota solidão e reencontro,
pois que a música nos encara aos nossos abismos e lá, nos concebemos:
dois.

Deito às margens das ondas, olhos semi-cerrados, do abraço do sol...
e um medo de estender a mão para o lado...
E ela receber a sua resposta.
Aí sim...

aí sim:
Prostrar-me diante da noite, merecer.
Um corpo quente que me aterrorize ou me enterneça,
ao qual me entregue, seja como for.

Escrevemos nossos dias no tempero da carne,
no cheiro dos livros velhos que não cabem mais à estante,
que em nossas mãos se esfarelam, recriados.
Escrevemos nossos dias em versos,
do sabor que chega da cozinha
e contamina a rua.

Gosto do vinho que agora pertence às nossas entranhas.
E nos embriaga, e nos estraga, e nos faz sentir, mais e mais,
o deslumbre de se transformar, um ao outro, na mais pura efemeridade.

Venha logo.




Mari Brasil